quinta-feira, 11 de março de 2010

Caldo no Rio, chegando...

Fala Povo!

Já estamos na cidade maravilhosa, com uma recepção idem pelo pessoal da Ponte Plural, coletivo FDE que nos dá o suporte para tocarmos amanhã na Mostra Instrumental Contemporânea - MIC , no Teatro Nelson Rodrigues da Caixa Cultural (veja a programação!). Na verdade estamos hospedados de frente pra Baía de Guanabara, na praia de São Francisco, Niterói, no apartamento do Daniel e da Lua. Já recebemos a visita do nosso amigo, batera, luthier e empreendedor Fabiano, que toca na banda Os Outros. Ele nos atualizou de seus projetos, e levou a minha caixinha de bronze pra consertar. Juro que é a ultima tentativa de consertar essa bicha...

Capa...


... e recheio!

Logo que desembarcamos no aeroporto Santos Dumont (parece que vai pousar na água!) recebemos uma ligação do pessoal da Agência de Notícias do Acre, e ficamos sabendo que tinha saído uma matéria sobre a MIC, com o Caldo em destaque, na capa do caderno B do Jornal do Brasil. Corremos pra banca e garantimos alguns exemplares! Confira aqui a matéria íntegra. Mais tarde rolou também uma entrevista com o pessoal da Rádio Microfonia, aqui mesmo no apê da Lua e do Daniel. Agora é só descansar pra amanhã...


sábado, 6 de março de 2010

Mostra Instrumental Contemporânea

Do site do Coquetel Molotov.

Mostra revela cena instrumental brasileira em 3 noites

A CAIXA Cultural do Rio de Janeiro apresenta, nos dias 12, 13 e 14 de março, a Mostra Instrumental Contemporânea (MIC) com a presença de seis bandas de diversas cidades brasileiras. Em comum entre elas está a vontade de ousar e desafiar parâmetros musicais, experimentando linguagens e trabalhando tanto ritmos brasileiros quanto universais.

O projeto traz, em três noites, shows gratuitos de bandas que variam do Dub Free Jazz ao Post-Rock-Metal. Como participantes desta primeira edição do evento, a produção convidou os grupos Caldo de Piaba (AC), Binário (RJ), A Banda de Joseph Tourton (PE), Guizado (SP), Fossil (CE) (foto) e Elma (SP). Todos os artistas convidados são considerados promessas da atual cena musical independente no Brasil e tem se destacado com trabalhos autorais autênticos, atraindo um novo público para o fortalecimento da música instrumental nacional.

A Mostra Instrumental Contemporânea, iniciativa do grupo recifense Coquetel Molotov, tem a proposta de ser um evento para mostrar ao público novas vertentes da música instrumental, sem limitar-se aos gêneros musicais comumente vistos. A Mostra procura abrir uma janela para apresentar ao público carioca a diversidade das bandas instrumentais brasileiras da atualidade.

Atrações - Na primeira noite, sexta-feira dia 12, o MIC apresenta show com as bandas “Caldo de Piaba” e “Binário”. Caldo de Piaba é uma banda do Acre, que, em suas misturas musicais, trabalha com carimbó, guitarradas do Pará, Ska e Rock'n'roll. O grupo tem circulado bastante pelos festivais independentes do país e conquistam o público com suas releituras envolventes. A Binário, que já está na batalha há cinco anos no Rio de Janeiro, faz da liberdade estética e da pluralidade de referências de seus integrantes um laboratório de sons e imagens inusitados.

No sábado dia 13, a versatilidade de sons toma conta da CAIXA Cultural com os shows de “Guizado” e “A Banda de Joseph Tourton”. Reconhecidos como uma das revelações do atual cenário musical pernambucano, “A Banda de Joseph Tourton” impressiona pela sua criatividade e ousadia na execução das músicas que possuem influências diversas. “Guizado”, projeto musical do trompetista Gui Mendonça, faz uma mistura psicodélica dub e jazzística com texturas eletrônicas resultando numa música hipnótica para os ouvintes.

O último dia da Mostra Instrumental Contemporânea é dedicado a bandas com uma pegada mais pesada. “Fóssil” e “Elma” sobem ao palco no domingo, dia 14, para encerrar o projeto em grande estilo. Os integrantes do “Fóssil” desenvolvem suas músicas investindo em uma estrutura linear, porém variada, baseada em camadas sonoras sobrepostas. Fazendo Metal sem utilizar os clichês do gênero e criando uma atmosfera punk sem vocal, o “Elma” é pesado e barulhento como uma mistura de Melvins e Pelican.

MOSTRA INSTRUMENTAL CONTEMPORÂNEA
PROGRAMAÇÃO
Sexta-feira, 12 de março, às 19h30: Caldo de Piaba (AC) e Binário (RJ)
Sábado, 13 de março, às 19h30: A Banda de Joseph Tourton (PE) e Guizado (SP)
Domingo, 14 de março, às 19h30: Fossil (CE) e Elma (SP)
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro Nelson Rodrigues
Endereço: Av. República do Chile, 230, Centro (Próximo ao Metrô: Estação Carioca)
Entrada Franca
Capacidade: 388 lugares (sendo 2 para cadeirantes)
Classificação: Livre
Acesso para portadores de necessidades especiais
Mais informações: www.caixa.gov.br/caixacultural


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Diálogo na rodoviária, uma questão fonética.

- Moço, quanto é a passagem de Natal pra Recife?

- Cinquenta e seis reais, mais taxa de embarque, que você paga lá em Natal mesmo.

- Beleza, vê três!

- O nome dos passageiros, por favor.

- Vamo lá: Eduardo Di Deus, mas o "de" é com "i"!

- "De" com "i"?!

- Isso...

[...]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Caldo da Peste, Piaba no Nordeste em resumo

"Ao contrário do que se imagina, as distâncias entre o Sul e o Norte não são as maiores do Brasil. Por rodovia, Rio Branco e Porto Velho estão mais próximas de Porto Alegre do que de Belém ou qualquer capital do Nordeste. Como não temos linhas retas saindo do Acre direto para o nordeste, foram mais de 56h viajando. Mais de (5.124 + 125+ 632 + 839 + 191 + 191 + 120 + 185) 6.568 km percorridos entre Rio Branco (AC), Maceió, Arapiraca (AL), Salvador (BA), Recife (PE), Campina Grande (PB), João Pessoa (PB) e Natal (RN). 2 aviões. 8 ônibus interestaduais e intermunicipais. Alguns outros de transporte coletivo urbano. 8 camas diferentes. Alguns lavabos e banheiros químicos. Mais de 15 coxinhas de frango. Alguns outros sanduíches. Bloqueador solar fator 30. Mais de 30 garrafas de água mineral. 2000 mil fotografias digitais e mais uns outros tantos vídeos amadores. 50 cds do caldo de piaba espalhados por aí. 41 e uns outros vieram parar no Acre graças a turnê apoiada e patrocinada pelos vários coletivos que compõe o circuito fora do eixo, viabilizando uma banda sair do Acre e mostrar seu trabalho por esse brasilzão adentro." [...]

Esse é o comecinho do resumão de nossa primeira tour pelo Nordeste, feito pela Kaline Rossi (núcleo de comunicação do Catraia), que nos acompanhou durante toda a viagem. Acesse o texto na íntegra no Blog do Catraia. Valeu demais pela força, Ka!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Últimas paradas: João Pessoa e Natal

Os dois últimos shows de nossa tour pelo Nordeste foram nos estados da Paraíba e Rio Grande do Norte. Foi uma esticada na tour, já que por questões de agenda não pudemos tocar nos Grito Rock de ambas as cidades, nem na Chamada Carnavalesca do Rock de Natal. Mesmo com pouco tempo pra divulgação, o Coletivo Mundo e o Do Sol nos receberam em suas casas (de morar), e promoveram 2 ótimos shows em suas belas e aconchegantes casas (de show).

Chegamos a João Pessoa no final da manhã da quinta-feira (também de cinzas) pós carnavalesca. Rayan, do Coletivo Mundo e da Nublado nos recebeu em seu apartamento, em meio aos preparativos pro Grito Rock de lá, que rola essa semana. Foi oportunidade pra Kaline (que foi fundamental na tour, cuidando da banquinha e das comunicações) e eu visitarmos sua avó, que mora na capital paraibana.

Praça Anthenor Navarro; ao fundo, o prédio da Associação Comercial

Espaço Mundo, Praça Anthenor Navarro

Espaço Mundo, Praça Anthenor Navarro

Logo já era hora de irmos pro Espaço Mundo, onde rolaria o show. O espaço é localizado no centro histórico da cidade, na Praça Anthenor Navarro, num bairro que curiosamente tem o mesmo nome do festival aqui do Acre, Varadouro. Fica numa espécie de reduto cultural, onde muita coisa acontece.


Estúdio 24h (João Pessoa-PB)

Antes do show, deu tempo ainda de conhecermo o estúdio 24h, o "estúdio do Burro Morto", banda que também integra a Agência Fora do Eixo. Localizado no prédio da associação comercial da cidade (onde ficam mais 2 estúdios), o 24h tem uma estrutura de primeira, com uma sala de gravação bem grande (com pé direito alto). Investimento foda que fizeram com recursos do projeto pixinguinha. Foi lá que gravaram o primeiro disco cheio, a sair em breve.


O Mundo por dentro


De volta ao Espaço Mundo, rapidamente a estrutura foi montada pro show. O espaço é gerido coletivamente pelo pessoal do Mundo, que se reveza nas múltiplas tarefas: fritar batatas, montar o palco, cuidar do bar etc e tal. O espaço chama a atenção pelo cuidado nos detalhes: as artes nas paredes, os panfletos. Tá nos planos do coletivo alugar o andar de cima, mas parece que o proprietário é reticente em liberar o antigo escritório de uma usina de cana falida a dez anos pra casa ganhar um segundo ambiente.

Montagem do palco

Rayan (banda Nublado e Coletivo Mundo) e as batatas

De volta ao Espaço Mundo, rapidamente a estrutura foi montada pro show. O espaço é gerido coletivamente pelo pessoal do Mundo, que se reveza nas múltiplas tarefas: fritar batatas, montar o palco, cuidar do bar etc e tal. O espaço chama a atenção pelo cuidado nos detalhes: as artes nas paredes, os panfletos. Tá nos planos do coletivo alugar o andar de cima, mas parece que o proprietário é reticente em liberar o antigo escritório de uma usina de cana falida a dez anos pra casa ganhar um segundo ambiente.

No dia do show rolou também a vernisage da exposição Visto na Rua, duma artista francesa chamada Tooza. O trabalho dela é muito interessante: ela faz bricolagens de artes urbanas de diversos lugares do mundo. Grafittis e outras artes urbanas de Marselha, Salvador, Olinda, Paris e de tantos outros lugares se misturam. Seria uma arte "cover"? Pra mim é recriação, transformação, tem o olhar em cima do olhar.

Parte da exposição Visto na Rua

Nosso show foi divertido, leve e bem próximo do público, que recebeu a gente muito bem e interagiu, antes, durante e depois. Conversas interessantes com os frequentadores do Espaço, e com o pessoal de outras bandas. Foi legal conhecer o pessoal d' Os Caronas do Opala, banda que toca "música popular melodramática" dos anos 60 e 70, o brega. Ao final, enquanto conversávamos na Praça Anthenor Navarro, escutávamos um som que vinha de algum estúdio. "É do estúdio do Chico Corrêa (e eletronic band)", explicou alguém.

Na sexta-feira, dia 19/02, logo pela manhã, chegamos 3 minutos atrasados na rodoviária e perdemos o ônibus. "Era pra Natal, é? Saiu faz teeeeempo!", disse a moça da catraca do embarque. Pelo menos deu tempo de comer uma tapioca antes do próximo ônibus. Em natal, super recepção na casa de Ana Morena e Anderson Foca (onde também funciona o estúdio do Do Sol). Por lá também o onipresente Dimmy (que tocou com a gente em Salvador e esteve em Recife no Rec Beat), um dos bateras clonados do Vendo 147. Além de quebrar tudo na batera e ser pioneiro na loucura de uma batera 2 em 1 no Brasil, Dimmy também tem o dom da cozinha: complementou a macarronada de Ana com uma deliciosa Carne de Fumêro, direto do interior da Bahia. É como se fosse um bacon, também feita com carne e porco, mas com quase nada de gordura. Fantástico! Pena que a pimenta baiana que ele serviu num era tão ardida assim. Foi uma prévia pro Rock na Cozinha (é esse mesmo o nome?), um programa em quem ele vai apresentar bandas de todo o país e fazer pratos de suas respectivas regiões. Quero só ver se vai rolar um Caldim de Piaba por aí...

Conversa boa durante toda a tarde na mesma varanda que foi cenário da polêmica entrevista do Pablo Capilé pro blog O Inimigo. Falamos bastante sobre o Do Sol e sua estrutura (casa, estúdio e muito mais), sobre o portal nagulha, sobre o Circuito, e sobre qual era a praia mais próxima, é claro.


O show no Centro Cultural do Sol foi muito aconchegante também. Palco montado no chão, mais próximo das pessoas. Pouco antes do show Foca se desculpava antecipadamente, pois achava que o público poderia ser miado. No entanto, enquanto assistíamos ao documentário do Jimi Hendrix, as pessoas foram chegando. Mais de duzentas, na conta do Foca, que prestigiaram a noite instrumental com Camarones Orquestra Guitarrística (outra banda da agência FDE) e Caldo de Piaba.

Camarones Orquestra Guitarrística

O show Camarones contou com a participação do Dimmy na bateria, antecipando a participação especial que fará na tour da banda pelo Nordeste em março, substituindo temporariamente o Xandi. O do Caldo, pra fechar a tour, teve mais improviso do que nos anteriores.

Béquistaige

Caldo no Sol

No dia seguinte, tempo pra visitar a praia pela última vez. Ana Morena deu carona pra Saulo, Kaline e eu até a praia de Ponta Negra, enquanto Miúda foi procurar discos no Shopping. Foi tempo de encontrar também os 3 irmãos da Kaline que moram em Natal. Um deles, treinador de Judô, me ensinou como se deve apertar a mão de um cunhado. Ainda bem que foi depois de todos os shows terem terminado...

Praia de Ponta Negra

"Picolé caseiiiirôôôô.... Caicóóóóóó!"

As quase 24h de estrada e vôo desde Natal até Rio Branco foram na verdade pouco tempo pra ficha cair de tudo que aconteceu que nesses 15 dias, com 7 shows em 7 cidades. Chegamos em Rio Branco cansados, mas com a sensação de dever cumprido; e com a sensação que estávamos há uns 2 meses na estrada.


Di Deus


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Rock encorpado do Acre

Já estamos na rodoviária de João Pessoa, aguardando o ônibus pra Natal. Enquanto isso, reproduzimos na íntegra reportagem do Diário de Pernambuco:


Rock encorpado do Acre

No Norte do país, a expressão "caldo de piaba" significa algo ralo, aguado, sem conteúdo. O trio acreano que leva esse nome passa longe dessa expressão. Com baixo, guitarra e bateria, a combinação, verdade, é compacta. Mas as conexões com o nome terminam por aí. Saulo Machado (guitarra "e gritos"), Eduardo di Deus (bateria) e Artur Miúdo (baixo) fazem um rock vigoroso, encorpado e cheio de groove. No show que fizeram no Rec-Beat, na última terça-feira, eles tocaram deliciosas versões de I want you (She's so heavy), do Beatles, e No caminho do bem (Tim Maia). Nunca haviam tocado para um público tão grande, mas dominaram o palco, mesmo que, intimamente, não estivessem lá tão confiantes. "Quando eu olhava e via a multidão, eu fechava os olhos de medo", ria o baterista, em entrevista depois do show.



Caldo de Piaba tem conquistado espaço por meio de festivais independentes Foto: Roberto Ramos/DP/D.A Press


Juntos há menos de dois anos, a Caldo de Piaba está conquistando espaço por meio de festivais independentes. Participaram do Varadouro, em Rio Branco mesmo, e do Calango, no Mato Grosso. "Fazemos parte de um coletivode bandas, o Catraia, para fortalecer a cena local e estabeler contato com outros estados por meio do circuito Fora de Eixo. Isso viabiliza a nossa circulação fora do Acre", explica Eduardo.

Por enquanto, o trio nem pensa em deixar o estado do extremo norte. "O Acre é lindo, meu bem", tenta convencer Eduardo. "É um estado de fronteira, com uma cultura rica e um projeto piloto para conter o devastamento da floresta amazônica", explica. Tanto Eduardo quanto Saulo são nascidos no sudeste e migraram para o Acre levados pelos pais, quando eram pequenos. Filho da terra, só Artur. "Queremos circular com a banda, fazer shows, participar de festivais. Mas não pensamos em nos mudar do Acre para conseguir mais divulgação", diz.

Como a viagem do Acre até o Nordeste dura mais de 12 horas de avião, o trio aproveitou o convite do Rec-Beat para fazer uma miniturnê pela região. Já tocaram em Maceió, Arapiraca, Salvador e Campo Grande. Hoje, se apresentam no Espaço Mundo, em João Pessoa. Depois, voltam para o distante e, agora, menos desconhecido Acre.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

De Recife a João Pessoa

Nesta quinta-feira pós carnaval partimos de Recife, rumo a João Pessoa. A capital caótica de Pernambuco foi nossa base na tour pelo Nordeste, onde passamos a maior parte do tempo. Ficamos hospedados na casa da Mayara do Lumo Coletivo, sendo muito bem recebidos por toda sua família: a Rô, sua mãe, e pelos irmãos Pablo e Yasmin (ótimos cozinheiros!). A casa deles fica em Candeias, bairro do município de Jaboatão dos Guararapes que, junto de Olinda, integra a região metropolitana de Recife. Um bairro residencial muito próximo da praia, mas com um aspecto de interior.

Entre um viaduto e outro, banana, abóbora e cebolinha!

Dizem que Recife é uma das cidades mais violentas do país. Sei lá como é que se mede a violência, mas essa fama assusta um pouco. O fato é que logo de cara a cidade ofereceu uma surpresa: hortas e roças urbanas em áreas verdes na entrada da cidade, áreas que em geral servem apenas pra decorar os viadutos e anéis viários. Fiquei imaginando como seria algo parecido numa cidade cheia de gramados e áreas verdes como Brasília. O Eixão tomado por hortas e pomares; a via EPIA (que liga o centro ao aeroporto e à cidade satélite do Guará) cheia de roçados de macaxeira e banana. Difícil de ocorrer numa cidade em que o tombamento às vezes serve de desculpa pra segregação territorial de classe.

Apresentação de música indiana na abertura do 19º Encontro da Nova Consciência, em Campina Grande

Depois de dois dias entre Jaboatão dos Guararapes, Recife e Olinda seguimos para Campina Grande, onde tocamos na sexta-feira de carnaval, dia da abertura do 19º Encontro da Nova Consciência. O encontro tem um perfil ecumênico, de cultura da paz, e também da pluralidade. Esse ano o tema central foi sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. Todos os anos são abrigados diversos encontros paralelos: de profissionais do sexo, ufólogos, hare krishnas, santo daime, e muitos mais. Essa diversidade, no entanto, gerou reações. No ano passado esse tradicional encontro foi desalojado do lugar onde costumeiramente ocorria – o espaço onde ocorre os festejos juninos da cidade – para dar lugar a outro encontro, nada plural, promovido por uma vertente religiosa. Como se não bastasse, foi usado quase o mesmo nome do encontro original. O ENC, no entanto, resiste. Nosso show foi no Rock na Consciência, realizado no Bronx Pub, uma das programações musicais do evento. No mesmo dia, pudemos conferir os shows de Bnegão Sound System e Burro Morto no palco principal, armado literalmente embaixo da ponte.

Rockeirada do Bronx pub dançando ao som do Caldo

Campina Grande e Tapioca idem

No domingo de carnaval, quando já tínhamos voltado ao recife, rolou ainda o Grito Rock Campina Grande, completando a programação musical do Encontro. Foi uma promoção do emergente Coletivo Natora, que nos recebeu muito bem na cidade. O coletivo, liderado pelo pessoal do Sex on the Beach (que havia tocado com a gente no Grito Rock de Maceió), foi formado durante a Coluna Fora do Eixo Nordeste, que passou por lá no final de 2009 e integrou uma galera que já trampava com produção. Diogo e Marlo nos explicaram que Campina é uma cidade universitária, e que isso gera uma rotatividade muito grande no público. Eles mesmos são de outras cidades daqui do nordeste. Estar em uma cidade universitária pode dificultar a consolidação de um público local, que se renova a cada 4 ou 5 anos, mas traz a oportunidade também de ser um polo formador de público pra outras localidades. Uma posição estratégica, numa cidade bonita e aprazível. Pena foi ter passado apenas um dia por lá. No sábado de manhã já embarcávamos de volta para o Recife.


Diogo (Sex on the Beach) e seu chevetão laranja, veículo oficial do Natora Coletivo

Em Pernambuco respiramos música. O carnaval aqui é uma loucura: muitos palcos espalhados pelo Recife antigo (a região “histórica” da cidade), por Olinda, e por um sem número de polos nos bairros. Há alguns poucos anos a prefeitura vem descentralizando o carnaval de rua, levando grandes atrações como Nação Zumbi e Jorge bem pra tocar não somente no Recife antigo, mas também nos bairros. Tinha de tudo acontecendo ao-mesmo-tempo-agora: desde as manifestações mais “tradicionais” do Pernambuco, como o frevo e o maracatu, até shows de artistas populares como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Dudu Nobre, Otto e Lenine no Marco Zero, passando por shows um tanto estranhos pruma programação carnavalesca, como Nxzero, até a programação interessante e diversificada do Rec Beat. Acabamos nos concentrando na programação do Rec Beat, com algumas fugidas pra ver uns grupos de Maracatu passando e um ou outro show. Destaque pro de Otto no Marco Zero, com o Pupilo da Nação Zumbi na bateria e Catatau do Cidadão Instigado na guitarra. Me arrependo só de ter perdido a noite dos tambores silenciosos, que ocorria no Pátio do Terço, não tão perto do Cais da Alfândega, local do Rec Beat. Sempre na noite de segunda-feira de carnaval um grande número de grupos de maracatu se encontram e tocam juntos. Mas outros carnavais virão...
Passagem de som, e a rua vazia, 7h45 da manhã

Quase na hora...

Na hora!

Era gente, ó

A programação do Rec Beat foi diversificada e surpreendente. Tiveram espaço bandas novas como as locais Banda de Joseph Tourton, Rastidae (que teve seu show interrompido na segunda música por problemas técnicos) e a gente, junto de artistas aclamados como Céu e Cidadão Instigado, que fizeram ótimos shows, totalmente conectados com o público. Destaque pras participações especiais do Guizado e da Ana Elis Assunção no show da Céu. Gabi Amarantos, diva do tecnobrega paraense, improvisou, brincou, e fez o povo dançar como se estivesse numa aparelhagem em Belém.

Paco Sotelo, do Cabezas de Cera (México)

Dos internacionais, surpreenderam os shows dos espanhóis do Ojos de Brujo, que mistura um monte de ritmos com música flamenca, e a experimentação dos mexicanos do Cabezas de Cera com instrumentos nada usuais. Interessantíssimo o set de batera de Paco Sotelo, com uma caixinha de 12”, bumbo, chimbal, pratos de efeito e dois módulos de bateria eletrônica. Os instrumentos de corda usados pelo Mauricio Sotelo são únicos, construídos por ele mesmo. Um show cheio de texturas e climas, perfeito! Foi impressionante também o trabalho de toda a equipe do festival: produção impecável e sonorização de primeira qualidade, tanto na equipe quanto no equipamento. Não é a toa que o Rec Beat completou 15 anos, consolidado como um elemento chave da programação do carnaval de rua de Recife, talvez o mais popular e democrático do país.

Rolou também durante todos os dias a transmissão de áudio e video do festival, realizada pelo Lumo Coletivo. Durante nosso show três músicas foram retransmitidas ao vivo pela TV Aldeia, do sistema público de comunicação do Acre. Aliás, dá pra conferir o nosso e outros shows do Rec Beat na íntegra aqui. Esse ano o carnaval em nosso estado tem como tema a Floresta Digital, programa do governo que está entrando em operação agora, levando sinal de internet wi fi gratuitamente para todos. Por isso, a transmissão das festas foi marcada pela interatividade com a rede. Antes de sair de Rio Branco a gente já tinha gravado uma vinhetinha explicando o que era a rede do Myspace, que ia ao ar nessa programação especial.

Pra mim a passagem por Recife se tornou ainda mais especial pelo número de amigos brasilienses que rencontrei. Marina, Joana, Clara, Julia, Manu, Pedro, Leo, Marina, Rogê, Dudu e Rosana estavam presentes no show do Caldo no Rec Beat e em outros encontros nessa semana em PE. No meio do mar de gente do Cais da Alfândega, uma ilha familiar.

Ainda hoje tocaremos em João Pessoa, na abertura de uma exposição de arte no Espaço Mundo, do coletivo homônimo. Estamos curiosos pra conhecer a casa deste que é mais um dos coletivos do Circuito Fora do Eixo que vai nos receber nessa tour. O espaço fica bem no centro histórico da cidade, num bairro chamado coincidentemente de Varadouro, o nome do festival que o Catraia organiza em Rio Branco. Mais no site do coletivo mundo.

Amanhã, completando a ressaca de carnaval e encerrando a tour, subimos pras terras potiguares, onde seremos recebidos no Centro Cultural Do Sol para tocar junto de outra banda instrumental da Agência Fora do Eixo, a Camarones Orquestra Guitarrística. Mais no site Do Sol.

Té mais,

Di Deus.